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domingo, 11 de abril de 2010

As chuvas de Cecília

Cecília vivia apenas com o amor que fazia sua vida funcionar e com os sonhos e vontades que nunca iam embora.
Mas Cecília queria mais, muito mais. Não em questões materiais, mas pessoais, vivenciais, sentimentais...
A cada dia complementava seus pensamentos com um detalhe a mais.
Detalhes da casa que imaginava ser o seu cantinho.
Cantinho este com quem dividiria o amor, a vida... Desejava imensamente isso.
Isso e o filho que sempre quis, se imaginava a cuidar dele, dele não! Deles. Sim mais de um. Dois ou quem sabe três. Sempre pensou em adotar uma criança também. Se via cuidando deles, contando histótias, afastando seus medos, correndo na chuva... Mas nem ao menos sabia se esses filhos viriam, ou se seria capaz de cuidar deles de verdade.
Cecília queria uma família.
Quando saía pelas ruas, refletia sobre sua vida, pensava ...
De repente, começou a chover e ela saiu de seus devaneios. Andava tão triste ultimamente, e por mais que tentasse não conseguia afastar essa tristeza. Mas, ao ver a chuva, inquietou-se.
Ela sabia que precisava disso, dessa chuva que poderia acalmar o seu coração. Decidiu sair. Tirou os sapatos e pôs-se a andar na chuva. Em pouco tempo não mais andava... Corria, gritava, pulava, colocava para fora tudo o que se passava dentro de si. A água que lhe corria pelo corpo não estava tão fria assim. Ela adorava poder estar ali. Adorava a chuva. Adorava poder não pensar...
Chegou em casa. Tomou um banho quente, deitou-se e pegou um bom livro, coisa que há muito tempo não fazia. Leu um pouco. Ficou com sono. Adormeceu. 
Ao acordar, voltou a pensar em tudo que desejava realizar, mas sabia que não estava só. Saber que nao estava só trazia paz ao seu coração.
Cecília não sabia ao certo o que estava por vir, mas sabia que cada coisa viria a seu tempo.




Esperaria então a próxima chuva...

Marina Castro

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A volta

Ângela saiu de casa em descompasso. Queria encontrá-lo para contar a novidade o mais rápido possível.
O encontrou de porre. Era sempre assim, pensou. Ele nunca lhe dava tanta atenção quanto merecia. muito menos depois de tudo o que aconteceu a Mateus.
A felicidade de  Ângela abrandou um pouco. Esperara tanto aquele momento... Mas compreendia a tristeza de Humberto. 
Resolveu chamá-lo:
- Humberto vamos para casa! ( a novidade teria que esperar...)
Levou-o, fez um café bem forte e esperou até que ele tivesse condições de ouvi-la.
Então, olhou-o fixamente e disse:
-Ele vai voltar.
-Quando?
-Chega amanhã. Telefonaram avisando.
Os dois não contiveram o choro. Abraçaram-se. Passaram a noite inteira acordados sem conseguir conter a ansiedade de tê-lo de volta em casa.
Há dois anos ele estava na clínica, tentando se livrar das drogas. Mateus, seu único filho...
Por algum tempo, ficaram desnorteados, sem ao menos saber o que fazer. Foi muito difícil interná-lo,  ter o filho longe, mas era para o bem dele. 
Sabiam o quanto ainda seria difícil e o quanto era importante ter seu  filho de volta depois de tanto tempo...
Ele estava limpo, livre de novo, com uma batalha imensa pela frente.
Não sabiam ao certo o que fazer, como agir, mas existia o amor, amor este sabiam que apenas eles sentiam pelo filho e havia a fé de que tudo se encaixaria outra vez...
Era chegada a hora. Iriam buscá-lo e seriam felizes outra vez.
No grande encontro, abraçaram-se emocionados. Mateus agradecia e pedia perdão por todo sofrimento que causara aos pais. 
Ângela apenas falou:
-Calma filho, vamos começar tudo de novo e seremos muito felizes. Você vai ter uma nova vida e ainda quero carregar meus netos no colo...
E Mateus, com seus 23 anos, olhou para os pais e sorriu, um sorriso como os de 7 anos atrás, sem aflição ou medo, sem ansiedade. Sabia que estava a ponto de reconstruir toda a sua vida, que se perdeu após entrar nesse mundo sombrio... Mas esta já é outra história...



Marina Castro